Como você tem conversado com o mundo?
- Sheila Zambrini Santos
- 2 de abr.
- 3 min de leitura
No texto anterior, falei sobre ritmo; a importância de perceber a necessidade interna de ação e descanso e, mais ainda, da educação sensorial do corpo para estar atento em atender a si mesmo, à sua escuta interna, à coerência entre necessidade e comportamento; descobrindo aquilo que possibilita alcançar a própria maestria.
Ao falar de automaestria, nos deparamos com algumas pegadinhas.
Em primeiro lugar, vejo muitas pessoas que confundem atender à própria necessidade com egoísmo. Então, não se permitem atender às suas próprias necessidades. Quando o fazem, isso acontece sempre depois — depois de atenderem a alguma demanda externa.
Somado a isso, nas redes sociais muitas vezes se acirram as comparações, os modelos de comportamento, a criação de necessidades falsas, transmitidas numa linguagem de IA despersonalizada e uniformizada, tudo desviando a atenção para fora de si, em mais uma camada sutil da nossa existência.
Nossa vida parece ser linear e permanente: um dia após o outro, mês após mês, ano após ano… E isso nos dá uma sensação frágil de segurança e, quem sabe, de um pouco de tédio. Mais uma vez, estou apontando aqui para o quanto nos orientamos pelo lado de fora: a rotina, a agenda, os contratempos.
Não acredito que há certo e errado. O que quero é apontar a direção do estar atento a como você está se colocando no mundo, como você conversa com o ambiente que te rodeia.
Há uma parábola sufi:
Um homem procura uma chave do lado de fora de casa, debaixo de um poste de luz.
Alguém se aproxima e pergunta onde ele a perdeu.
“Dentro de casa”, ele responde.
“Então por que você está procurando aqui fora?”
“Porque aqui tem mais luz.”
Talvez seja preciso, então, voltar o olhar para o lado de dentro: para o que se passa sob a nossa pele.
A pele como limite e contato — uma fronteira viva, onde o mundo encosta e algo em nós responde: um espaço invisível, mas concreto, onde o eu e o não eu se encontram e, a cada instante, ajustam a forma de estar no mundo.
Como você habita o mundo e como o mundo te habita?
Você se sente apertado? Livre? Sofre, tem dor? Quando vivencia algo desagradável, fica com os músculos contraídos? Quando sente prazer, se expande, sorri espontaneamente?
É nesse ponto de contato — nessa fronteira — que “dentro” (estado interno, biológico e mental) e “fora” (ambiente) deixam de ser separados e se revelam conectados por um contínuo de energia e informação. Há sintonia quando o dentro ressoa com o fora — e a vida flui. Através das nossas ações e pensamentos, o dentro modifica o fora.
Então, para cultivar esse estado de sintonia e equilíbrio criativo, acione a sua atenção, faça contato com as suas necessidades e atue em acordo com elas para satisfazer a si mesmo.
Isso é um comportamento de ação consciente, e já não é mais um comportamento reativo inconsciente. A sua vida vai sendo experienciada cada vez mais ajustada, mais plena e mais leve.
Comportamentos reativos ainda irão existir, como parte da vida humana, mas serão passíveis de serem reconhecidos. Você agora enxerga a si mesmo e passa a fazer escolhas.
Essa atitude eu denomino de autorresponsabilidade.
Ser responsável diz respeito à capacidade de responder diante das diversas situações. Não tem nada a ver com conceitos morais, como muitas vezes impera na educação e cultura vigente.
E a autorresponsabilidade é a capacidade de responder a partir de si para o mundo, quando você se coloca no mundo a partir do seu lugar. Você demonstra o cuidado que você tem consigo e, consequentemente, se desdobra no cuidado com o mundo, com as pessoas que estão nele, na mesma medida.
Você acessou a sua bússola interna e agora pode ir e vir, no seu ritmo, e existir consciente de si mesmo.

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