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De onde surge a necessidade da pausa?

  • Foto do escritor: Sheila Zambrini Santos
    Sheila Zambrini Santos
  • há 18 horas
  • 4 min de leitura

Há fases em que seguimos fazendo tudo como sempre, e algo em nós já não acompanha do mesmo modo. O ritmo externo continua, enquanto internamente se instala uma sensação sutil de descompasso.

Esse descompasso é algo dissimulado, escondido, disfarçado. Difícil de se deixar perceber. Vai se revelando aos poucos; quando esquecemos de olhar para ele, ele se mostra um pouquinho. Vamos nos sentindo mais cansados, desmotivados, estranhando que pequenas coisas que antes pareciam leves passam a exigir mais esforço. Algo em nós já não encontra o mesmo sentido nas coisas de sempre.

Primeiro buscamos nos adaptar, agarrados que estamos à nossa rotina, à nossa agenda — aquela que escolhemos com tanta devoção ao final de cada ano. “Vamos enchê-la e cumpri-la” — sussurra uma conhecida voz interna. Logo em seguida, a mesma voz surge animada com promessas de um novo porvir! Parece que mudanças desejadas virão por aí… Sim: mudanças de coisas, de conteúdos. E, ao decorrer do ano, o eterno mais do mesmo, esperando a próxima virada… Aqui, ainda não nos atentamos ao que, de fato, movimenta a nossa vida. O ritmo.

Quando eu era criança, estudei e pratiquei um pouco de piano clássico. Aprendi sobre os tipos de compasso: ternário, quaternário. Havia um pequeno símbolo nas partituras, e a professora dizia que, naquele momento, era preciso tirar as mãos do teclado e fazer um aceno suave e delicado com os punhos, subindo e descendo novamente para tocar a próxima nota.

Para quem escuta a música, leigo, nada disso existe. Existe apenas a música, a canção e, na maioria das vezes, a melodia que se sobrepõe e encanta. Todo o restante — o compasso, o gesto, o tempo exato entre uma nota e outra — permanece invisível, sustentando a música sem aparecer.

E assim também somos nós, em nossa capacidade perceptiva do mundo e de nós mesmos. Por uma economia natural do cérebro, repetimos o que já fazemos e percebemos mais facilmente o conteúdo da vida:os acontecimentos, as tarefas, as mudanças desejadas e quase nunca o ritmo que organiza silenciosamente tudo isso.

Aliás, você sabia que as valsas têm compasso ternário? É justamente esse ritmo que as distingue das outras músicas.

Um, dois, três…

um, dois, três…

um, dois, três…

Então, dançamos valsa (pelo menos na nossa formatura!), dançamos rock, pop, carnaval, samba…

Como estamos dançando a nossa vida aqui-agora?

Pause a leitura por uma profunda respiração. Inspire. Expire.

A pausa faz parte do ritmo. Inclusive na respiração: inspiramos, há uma pausa natural que antecede a expiração; expiramos, e outra pausa natural se anuncia antes de inspirarmos novamente. É assim que seguimos vivos, sustentados por um ritmo que acontece mesmo sem que o controlemos. Talvez por isso a respiração seja tão utilizada quando buscamos tomar consciência: enquanto ela segue seu curso, o restante do corpo tende a acompanhar, reencontrando pouco a pouco um compasso mais próximo do que a vida pede naquele momento.

Hoje em dia, esse assunto de pausa virou moda e, aos poucos, está se tornando mais uma tarefa a ser feita no dia. Cuidado com essa armadilha. Pausar é algo natural do organismo vivo, que apenas nos pede para perceber e permitir.

Você tem sede, percebe, permite-se beber água. Você se irrita, estressa, cansa — percebe? Permite pausa?

Em primeiro plano, imaginamos que precisamos de grandes e impossíveis soluções para lidar com o peso da rotina, tais como, sair do trabalho no horário previsto, desfrutar de férias prolongadas, tirar um ano sabático. O resultado disso é sermos abatidos por mais uma camada de frustração e continuamos ligados no piloto automático, “dando conta” do jeito que dá.

Porém, um gesto simples e cotidiano, pode nos levar para a  saída desse impasse: nos momentos de exaustão, fazemos uma ligeira pausa, respiramos e começamos a escanear nosso corpo, por dentro e fora, perguntando: eu percebo a minha necessidade de pausa? Eu percebo qual é o meu ritmo interno hoje? Um ritmo que pode, e talvez deva, ser diferente do de ontem e do de amanhã.

Depois, uma pergunta ainda mais delicada: eu me permito pausar um pouco? Afastar-me, ainda que brevemente, de algo que me oprime neste momento? Respirar antes de um encontro difícil? Dar uma pequena escapada do ritmo alucinante que, muitas vezes, aceitamos como inevitável? Ficar a sós comigo um pouco? Talvez apenas deixar o celular em outro cômodo por alguns minutos…

Perceber e permitir o próprio ritmo abrem o caminho natural para as pausas. Pausar não é parar. Pausas e ritmo são inerentes um ao outro, assim como a luz e a sombra.

Aqui se revela a base do autoconhecimento e do autocuidado. De novo, algo que é da nossa própria natureza, sem custo adicional, sem a necessidade de grandes produções. Não é preciso comprar pacotes de sessões de relaxamento em spas — embora, claro, uma hora de massagem relaxante seja deliciosa! Mas ouso dizer que o aproveitamento se torna muito mais profundo quando você se torna maestro do seu próprio ritmo.

Quando você passa a tocar e dançar a sua música, começa também a perceber que esse ritmo é vivo, mutante, sempre acontecendo no presente. E, nesse encontro mais consciente com o próprio compasso, nasce a possibilidade de se colocar na vida com mais responsabilidade, permitindo que as reações aprendidas, pouco a pouco, se dissolvam nessa nova versão de você.


 
 
 

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